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Desnovelar

spider-webEscrever é a arte do corte. As coisas não vem separadas na cuca ; tudo é um grande embolado, puxa-se um fio, o novelo inteiro vem junto. Os editores é que sabem : às vezes é preciso ir parindo os filhotes na ordem em que eles queiram sair, para depois pôr ordem no balaio.

Escrever, parir, expelir. Em português se diz “desembucha” para fazer sair a fala travada ; também se diz, ao contrário, “obrar”, para esvaziar o ventre. O certo é que o texto parece mesmo às vezes sair das vísceras, não da cabeça. Como a aranha, que puxa da barriga um fio, e dali tece seu caminho, seu sustento, seu embuste — se existe uma metáfora melhor para o escritor, eu não conheço.

As ideias não querem vir ao mundo. Não chega a surpreender (se pudéssemos escolher, quantos de nós teríamos vindo ?), mas é interessante pelos fórceps que obrigam a gente a usar. Um meu amigo jura que se deve assentar ao computador todo dia, num horário marcado, e ali se obrigar a escrever qualquer coisa, até domar a escrita. Outro me disse que inspiração é movida a deadline : tem que ter sempre um prazo vencendo.

Eu não tenho tanta certeza : suspeito que tudo isso funcione para escrever relatório trimestral, mas para o texto verdadeiro, mais embaixo me parece o buraco. Acho que a ideia tem um momento, um vigor, e quer ser colhida na hora ; tipo sonho, tão vibrante, tão rico no despertar, a gente faz um esforço tremendo para fixar os detalhes, mas logo ele embaça, desbota, esvanece. A ideia, quando se deixa apanhar, é no instante ; é momento de parar tudo, abrir o processador de textos, e dizer para a vida “ ‘pera um pouco”. Ou talvez eu queira acreditar nisso por afago à minha natureza indisciplinada, sei lá.

Mas sei que a ideia zomba da gente, tão clara na cabeça, tão óbvia, tão linda, a gente senta para escrever e descobre que é impossível. Está clara só para nós, falta a linearidade que a escrita exige : tem que desnovelar antes. O chato disso, é que às vezes já está tão evidente, tão bem resolvido na cuca, que a gente até enjoa da danada, pega um nojinho. Mas para trazer a bichinha ao mundo tem que insistir, tem que cansar, tem que ficar repisando.

No final, o trabalho de pegar uma ideia bonita e pôr num suporte tangível — fala, escrita, movimento, som, imagem ou ação — é de uma imensa generosidade. Penso em Mozart, para quem aquelas modulações deviam ser ainda mais maravilhosas na mente, e no quão chato devia ser sentar e escrever cada nota. Me dá um pânico, uma desolação, a hipótese do Mozart guardando a música consigo, desistindo de traze-la para nós. Tamanha, que me convence a fazer um esforço, abrir o Word, insistir.