“Bandido, Assassino !”

brocade-silk-bag“Bandido, assassino !”

O grito veio da rua. Segundo depois, dentro do carro, uma massa informe nos explodiu aos pés. Meu coração deu um salto, terror.

Era só uma bola de estrume.

“Matador de criança, assassino !”, o grito continuava.

O homem saiu da multidão, brucutu de um camponês transtornado, furioso, investindo para cima de nós. Em frente, uma manada de gente ia sem pressa. De novo, pânico.

O cocheiro parou os cavalos de um gesto, e ergueu para nós uma única sobrancelha inquisidora. Antônio, meu amigo e seu senhor, abanou um quase invisível ‘não’.

Ouvi sem ver o tiro, um estrondo. Uma arma surgira na mão do cocheiro ; o camponês já no chão, abraçando uma perna, urrando de dor. Silêncio de um momento, e depois um clamor de revolta da turba. Avançaram.

Novo tiro, novo susto. Dessa vez o cocheiro de pé, braço para cima.

“Chumbo de graça !”, urrou. “Quem quiser, é só chegar perto. Não precisa brigar : tem pra todo mundo.”

A multidão se afastou, abriu o caminho. De pé mesmo, o cocheiro sentou o galope. Atrás, de relance, vi sair carregado o moço do tiro.

“O filho da puta vai viver, não gaste sua culpa com isso,” Antônio disse, muito calmo. “Com sorte, talvez fique manco, mas eu não contaria nem com isso.”

Tirou do bolso um saquinho de seda brocado, e levou o pot-pourri ao nariz.

“Eu realmente sinto muito, vamos ter que tolerar essa catinga até sairmos da vila. Não vai ser seguro parar.”

Recompus a cara e pus na voz uma firmeza fingida :

“É só merda de vaca. Melhor do que o cheiro do povo.”

Antônio fungou um riso e pôs na minha mão um segundo saco de pot-pourri, mais bonito que o primeiro.

Eu sempre detestei pot-pourri — acho merda de vaca melhor — mas, por cortesia, aceitei.

(Crédito da imagem)

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Psychography is all writing

The text knows better than the hand
A channel opens and it flows
I keep aside, doing my best to not disturb
A mystical sensation

I once believed in magic, thought of ghosts
Now I believe in electrons exchanging photons
And quarks exchanging gluons
(And then there’s gravity — if you still want to talk about mysteries)
The ghosts have abandoned me

But the text — oh the text
It still flows direct
Unpredictable
Ungovernable
From gyri to screen

Tachy

It was beating so fast, they did not let me go. “Rest”, they said, “we’ll join you shortly”. I was too restless to rest : I was worried about the beats, not of the heart, but of the clock. I took my computer and typed. Still, it was a rest. Of sorts.

It slowed down enough they would let me go. I went in a second, without second thought. Still, the thought was planted. I measured the beats through the week. I googled. Something’s not right.

Rhythm is not my forte. I struggle to keep the tempo. Time seems to dilate and compress in strange ways. I miss notes. I miss flights. I get late. I run out of time.

Running out of time is terrifying. I don’t want to. I shouldn’t have to. It’s a betrayal. But I know that the beats, of the heart and the clock, will not care. They dance to their own music, and won’t hear my tantrums.

Absolutely no sense of moral responsibility

There’s a good diner in spit distance from my flat. I go there often, and always sit at the bar, with a book or a tablet.

The server is always the same — a very sweet and helpful man. My conversation with him is limited to weather chatter and food orders — a man with a book is not in seek of conversation, and he is smart enough to take the hint. But I can see he is a talkative guy, always bantering with colleagues and clients.

Tonight he is engaged in a loud, lively talk with another patron. I order him a sandwich. He accomplishes my order with the usual virtuosity, and then resumes his chat. He stops now and then to ask me if I need something (“Cutlery, if you please ! And mustard.”)

I have my book open in front of me, and mostly ignore them, but I infer from their conversation, by tone and bits of content, that the men are not just client and server, but also friends — or at least, acquaintances. Or are they ? Am I considering the prior information that this is Brazil and not France ?

“And then she was there by the door, knife in hand, yelling ‘I’ll kill you’ !”

I am snatched from my book to reality.

The phrase having been announced by the server as the punchline to a joke, both men are now laughing their heads off.

Against all my instincts, I decide to intervene : “I’m sorry, you’re telling a fictional story, I presume ?”

“But no !”, the patron protests. “This is about his women, the one he lives with.”

“I’m terribly sorry. I really don’t want to meddle. But I don’t think this is a matter for laughing. I think this is a very serious matter. Criminal matter.”

They suddenly look very serious. The patron says, still half in jest, “this is the woman besides whom you sleep every night. Aren’t you afraid to wake up missing any bits one day ?”

“I really think this is something to be taken seriously”, I insist. “What you’re describing has a name : domestic violence.”

They look at me even more seriously. But it’s the server who liquidates the matter : “I know. She is just crazy jealous ! I’ll tell you : I live with my father and she’s even jealous of the time I spend with him ! The other day she asked me ‘why don’t you screw him as well ?’, and I had to shut her up with a slap.”

Blank. Don’t say anything. Nod. Smile and nod ? No, just nod.

I promise : next time I let my interaction with the commoners stray from the weather and the roads, I will shut myself with a slap.

Faith mismatch

They repeat this dialog every week.

“May god bless you with heavenly blessings.”

“Thank you.”

“May god be with you as you leave.”

“Thank you. You stay well.”

Her religiousness does not bother him, though every time he wonders if his dissonant answers hurt her feelings.

But the decision to remain secular in his civilities is final.

Fisiológico

A palavra rasga a página em branco, maculando a serenidade do vazio, impondo-se sozinha, vazando pelos meus dedos sem que eu queira ou me oponha. As letras se alinham formando algo que parece uma frase, a sintaxe lembra algo inteligível. Mas eu apenas sentia uma pressão que agora escapa pela tela limpa, nem penso e o movimento da mão faz aparecer o texto. Como bater ao piano uma velha melodia, lembrada mais no músculo que no cérebro. Um movimento amigo traz, aos arrancos, a sequência esquecida.

Pode ser que essa cadeia estranha de símbolos carregue em si alguma verdade, ou pode ser apenas encarnação de algum processo aleatório da alma. Assim de perto fica difícil distinguir sinal de ruído : é fácil querer dar forma às nuvens, como é fácil ignorar sinais de fumaça.

Não importa. Martelo as pequenas letras, que vão surgindo obedientes à minha vista. Vou batucando e descobrindo — ou fabricando — o sentido desta prosa : tec, tec, tec. Alguém que esbarrar nessas letrinhas enfileiradas pode também querer por nelas uma forma, ou então passar adiante sem vê-las, uma opção me parece tão boa quanto a outra. A broca cava o túnel por imposição da termodinâmica, que haja nisso qualquer arte é acidente. Consumir a madeira preserva a sanidade do inseto; sujar o silêncio, a minha.