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Almoço

pastel-de-feiraCaminhávamos sob um céu azul de inverno. O ar era fresco e bom, mesmo em meio à multidão que se acotovelava no entorno do templo: uma brisa dissolvia os odores da feira e os fedores do povo. No tempo da Aradura, era crença de que por milênios ninguém sentiria o prazer de um vento frio na cara, mas essa idéia, como muitas outras, revelou-se ignorância do Povo de Antes.

Quinzão — mais uma de suas virtudes — não era de falar muito. Se o Marcão tivesse inventado de vir, ia ser a aporrinhação de sempre, a perguntaiada sem fim, as repostas complicadas demais para sua cabecinha de jagunço-do-burgo.

Senti uma pontada de culpa. O Marcão venerava os tecneiros, à mim mais do que todos. “Mágica é a coisa mais linda do mundo”, ele me dizia, “é a única coisa que vale a pena de verdade.” E ele sabia — quero dizer, eu acho que ele sabia, nós dizíamos para ele abertamente — que não tinha nada de mágica naquilo, que era tudo coisa que gente normal havia feito antes da Aradura. Eu não sei se ele acreditava. Talvez, para ele, a fé no feitiço daquelas quincalharias já estivesse marcada demais para ser lavada com a fraca força dos fatos. Era possível que inculcassem isso nele desde a irmandade-aprendiz.

Eu não conhecia a formação dos jagunços, mas via os efeitos. Dois brutamontes armados daqueles podiam matar todos nós com a mão nas costas. Se a arapuca caísse na hora certa, eles fugiriam com uma grana preta, além de um estoque de mercadoria suficiente para garantir teto, comida, álcool e putas (ou putos, sei lá) para o resto da vida. E a coisa não acontecia.

Eu nunca ouvira qualquer história de horror com Technocrafters degolados no meio do mato, os jagunços sumidos com a grana e os ‹wares›. Com os Finetuners sim, tinha casos arrepiantes, que os nossos contavam fazendo troça.

A última que eu ouvi foi narrada na zombaria, de como os Tuners, depois de terem depenado uma vila n vezes, voltaram por lá com a cara lavada de sempre. Um Tenente — que era quem mandava no povo — desesperado e enfurecido foi ter com os três guardas dos Tuners. Prometeu dinheiro alto se dessem um jeito dos mestres fazerem, uma vez na vida, o serviço direito. Os jagunços dispensaram a grana, mas exigiram carta-branca. No dia seguinte, os Tuners estavam recebendo todo mundo com a maior boa vontade, e fazendo um trabalho, senão perfeito, porque eles não tem cacife para isso, pelo menos honesto. E os jagunços estavam lá, pistolas em punho, mira na nuca dos merdas. E assim foram quatro dias seguidos, 12 horas por dia. No fim, a trupe recolheu a prata, recolheu os ‹wares›, e saiu da cidade como se nada tivesse acontecido. Ninguém nunca mais viu os guardas. Os tecneiros foram encontrados dias depois por uma caçadora da vila vizinha, que os achou pendurados pela goela nos galhos de um jacarandá, mais roxos que as flores da árvore.

Esse caso foi contado numa noite muito regada à cerveja, em um boteco na margem de Sumarevelha. Era um fim de de turnê e Luciano acabara de trocar com o agiota as pratas por promissórias assinadas. Os ‹wares› já estavam a caminho de Paulinianova numa caravana grande e segura. Agora, a prata que tínhamos era para gastar, e estávamos todos muito aliviados e alegres.

O lugar era um bar da modinha, frequentado por agiotas, mercenários ricos, ‹escorts› de luxo, titulados em trânsito. E tecneiros, óbvio. Um desses lugares pequenos, em que todo mundo quer entrar, fica uma fila enorme na porta, alguém-que-conhece-alguém aparece e entra na frente de todo mundo sem nem mudar de cor. Um nojo. Assim que chegamos, eu medi a populacha e lancei para a trupe um olhar exasperado de ‹really?›. Mas Luciano conhecia alguém-que-conhecia-alguém e pôs a gente pra dentro num instante. Como eu disse, um nojo.

Encontramos por acaso outra trupe de Crafters, que eu só conhecia de vista, mas cuja líder, Mariana, tinha sido irmã-aprendiz de Luciano. Era ela quem nos narrava, às gargalhadas, a história dos Tuners. Os dois já estavam pra lá de bêbados, e haviam entrado numa de trocar histórias de guerra, disputando quem tinha vivido a mais escabrosa. A hilaridade era geral, mas nada se comparava à de Mariana, que terminava a história aos arrancos, buscando ar entre as risadas:

«Mas aí é que vem a melhor. Nem bem tinham descido os defuntos, e o Tenente já estava mandando enviar duas cartas. Uma pros Swinetuners virem buscar os presuntos —»

Nesse ponto ela segurava a barriga de rir, as lágrimas escorrendo pela cara. Nós já estávamos rindo mais dela do que da história.

«— e a outra — ahahahaha — a outra — ahahahah, ai, eu não aguento —»

Mariana respirou fundo, e se compôs para terminar a história.

«Para mim mandou uma carta dizendo—» e recitou num português muito formal : “Senhora Doutora Mariana Rodrigues, o povo de Bauruvelha tem a honra de aceitar sua proposta, na condição de representante dos Technocrafters, para exclusividade na prestação dos serviços de compra, venda, e reparo de artefatos mágicos.”

Mariana nos encarou como se houvesse tirado um coelho da cartola, e depois explodiu de rir. Caímos todos na gargalhada.

Eu me lembro que fiquei dividido entre hilaridade e horror. Também questionei a conveniência de soprar aquelas idéias perigosas no miolinho dos nossos capangas queridos. Mas os jagunços, que eu via de canto, se entretinham sozinhos, numa conversa em português que oscilava entre o mérito relativo das cidades vizinhas nos jogos de bola, e no fato de que em Sumarevelha já era possível comprar o octagésimo quarto capítulo de ‘A Tecneira e o Iarca’. Uma ‹brass band› estridente competia com a gritaria do povo apinhado. Mariana falava num inglês rápido, cortado de risadas, com uma pronúncia engrolada de quem já passou da terceira caneca. Duvido que eles estivessem pescando duas palavras.

“O que a gente tá procurando, tozim?”

A fala de Quinzão me fez cair de volta à cacofonia da feira. Dei-me conta de que já estava circulando há minutos, sem realmente me preocupar em escolher, dentre as finas iguarias à disposição, qual parecia menos propensa a terminar em uma morte por cólera.

“Alguma coisa não letal. Que não envolva rins, nem tripas, nem miolos. Se possível, modestamente saborosa.”

Quinzão abriu um sorriso completamente sincero, uma coisa acirrante. Ou ele era imune ao sarcasmo, ou então não chegava a reconhecê-lo — o que, para fins de convívio, dava no mesmo.

“Eu sei o lugar. Vem comigo,” disse e tomou a dianteira.

Segui maquinalmente e voltei aos meus devaneios. Certamente não seríamos nós a ter o mesmo fim daqueles Tuners desgraçados. Eu não imaginava um gigante gentil como o Quinzão, ou um ‹groupie› obcecado igual o Marcão, colocando uma corda no nosso pescoço e nos botando para virar carne-de-sol em alguma clareira. Quer dizer, obviamente eu imaginava, mas parecia uma coisa incôngrua.

E, de novo, ninguém nunca soube de jagunços que houvessem mordido a mão dos Technocrafters. Não havia um relato sequer.

‹Publication bias›, meu caro. Se uma história obscena como aquela dos Tuners assassinados e deixados para apodrecer a céu aberto pelos próprios capangas era motivo de riso e galhofa… talvez a vergonha impedisse um Crafter de dizer que seu lider foi trucidado num crime parecido. E o Conselho talvez preferisse decretar uma trupe afogada num acidente de balsa a confessar que ela foi esquartejada por jagunços amutinados.

Não. Restava o fato de que os Tuners prestavam uma porcaria de um serviço mal-feito e deviam fazer inimigos por onde passassem, enquanto nós fazíamos um trabalho limpo, e estávamos sempre em bons termos com os mandantes locais.

Seria isso garantia de alguma coisa? Mandantes locais tinham seus próprios inimigos. E podiam ser trocados de uma hora para outra.

Mas os Tuners tratavam seus jagunços como lixo. E nós pagávamos bem — e tratávamos bem — os nossos.

“Chegamos!”

Despenquei de novo das nuvens. Estávamos em frente a uma grande tenda de empanados. Labaredas lambiam um enorme tacho de cobre, fazendo dançar o óleo escuro e suspeito. Um homem de roupa clara deitava ali dentro quadrados de massa. Qualquer fosse a receita, uma coisa era certa: Salmonella ou Escherichia alguma sobrevivieria àquilo.

Olhei em torno. Uma multidão se apinhava em frente ao lugar, pratas na mão. Bom sinal, mas ia levar uma eternidade.

“Quinzão, este lugar parece bom, mas não temos tempo para essa fila.”

“Fila, tozim? Que fila? Dá pra mim umas pratas.”

Dei-lhe as moedas e um saco de pano limpo. Antes que eu pudesse abrir a boca, Quinzão mergulhou na multidão às patadas, surdo aos protestos e palavrões. Zás-trás, e estava em frente ao balcão, com a cara mais limpa do mundo. Não era só Luciano quem tinha seus métodos.

Minutos depois emergiu de volta. Entregou-me de volta o saco de pano, que agora continha quatro empanados fritos.

“Cada um tem uma coisa dentro. Todos são bons.” E me olhou com a cara de orgulho de quem houvesse escavado sozinho as ruínas de Sãopaulovelha.

Mordi um. Era melhor do que parecia. Mordi de novo. Na verdade, era muito bom.

Eu devo ter traído meu gosto, porque Quinzão sorria com uma empáfia tão grande, que era de dar um tabefe.

Mas a imagem dos Tuners balançando nos galhos do jacarandá me ardia na mente. E era verdade que —

“Você fez realmente um bom trabalho. Mas isso é muito para mim. Fique com um.”

Ele quis recusar, mas eu não deixei. No fim, ficou radiante, mais com o elogio do que com o pastel.

Tomamos o caminho de volta.

(Crédito da imagem.)

Volto em meia hora

technosmithing-gearsCorri os olhos pelo templo. Uma penca de clientes se esparramava esparsa nos bancos, passando o tempo o melhor que podiam. Uma mulher tricotava à luz filtrada dos vitrais cafonas, apertando os olhos para não perder os pontos. Um rapaz olhava mesmerizado as arcadas, onde pinturas toscas mostravam suplícios de almas penadas. Um outro se estatelava no assento, pernas e braços abertos, toda compostura corroída pelo tédio.

Chegava a tarde sem que o templo esvaziasse de um pingo. Um que saía, vinha outro, senha na mão. Na entrada, Marcão recebia o freguês, examinava o papelzinho, abria a passagem.

Luciano havia distribuído cem senhas, que sumiram como pães quentes. Vai saber que cambalachos ele usava para manter o negócio tão próspero, mesmo neste fim de mundo. Entendi que houve um acordo com o cura para barrar a entrada dos Finetuners e dos Fix-it-all e, obviamente, parte da demanda vinha de consertar anos de sacagens perpretados por aqueles merdas. Luciano, esperto, regulava a conta-gotas as visitas, mantinha a roda girando. Rolavam histórias de gente revendendo as senhas por uma boa grana, apesar das ameaças do cura de que cambistas e usurários arderiam no fogo do inferno.

Que ocupássemos o templo foi obra também de Luciano. Disso eu não podia reclamar: a estrutura era melhor do que de muitas cidades maiores. A luz externa convergia toda para o altar dos santos, um simbolismo piegas de culto-velho, mas tanto melhor: pusemos ali as bancas do artesanato técnico. Iluminação que prestasse era condição básica para o trabalho, e, frequentemente, um problema.

Exclusividade e conforto não saíam de graça: Luciano molhava a mão do cura, e não era pouco. Todos sabíamos exatamente o quanto, porque entrava no Livrão, lançado em ‹Bribes, Extorsions, Rackets & Tips›. Tinha limites a aversão do cura pelo enriquecimento ilícito.

Monique, Bernardo e eu estávamos nas bancas de consulta. Juliana também, já que nesse arraial perdido, compra-e-venda era pouca. Luciano dava conta, fácil, do mercadinho improvisado no passadiço à direita. Gustavo, que era pau pra toda obra, ocupava a saleta de aula que instalamos em parte da nave, tentando fazer entrar alguma coisa em meia dúzia de cabeças-duras, duas horas por turma. Trabalho nada invejável.

Monique terminou de atender um cliente — quase sem pausa, chamou o próximo:

“Senha 37. Por favor, senha 37.”

Percebi que, desde que eu acabara com o calculista burro, já passava um minuto. Dos bancos, o povo me olhava ansioso. Uma da tarde. Chamo o próximo ou saio para comer? Decisão fácil.

«I’m out of here. Lunch. Back in thirty. Okay?»

«Yeah!» a resposta veio em coro.

Bernardo garantiu a vaga:

«I’m next, folks. I’m starving.»

Quinzão já estava nos meus calcanhares.

“Vai sair, tozim?”

Urgh. Doutor, doutorzinho, doutorzim, torzim, tozim. Urgh.

“Vou comer,” respondi seco.

“Vou contigo.”

Dizer “não” seria pura perda de tempo. Além disso, vai saber: mesmo nesses cafundós, sempre se podia tropeçar numa encrenca. Quinzão impunha respeito, atirava melhor que eu, e sabia usar os punhos. A conversa deixava um pouco a desejar, mas bem, não se pode ter tudo.

Apanhei o chapéu mas deixei o casaco. Mesmo em junho, nessa hora do dia? Bobagem.

No pórtico, Quinzão trocou com Marcão um soco amigável.

“A barraca tá contigo. Ó a responsa.”

“Vai na fé.”

Ganhamos a rua.

Desnovelar

spider-webEscrever é a arte do corte. As coisas não vem separadas na cuca ; tudo é um grande embolado, puxa-se um fio, o novelo inteiro vem junto. Os editores é que sabem : às vezes é preciso ir parindo os filhotes na ordem em que eles queiram sair, para depois pôr ordem no balaio.

Escrever, parir, expelir. Em português se diz “desembucha” para fazer sair a fala travada ; também se diz, ao contrário, “obrar”, para esvaziar o ventre. O certo é que o texto parece mesmo às vezes sair das vísceras, não da cabeça. Como a aranha, que puxa da barriga um fio, e dali tece seu caminho, seu sustento, seu embuste — se existe uma metáfora melhor para o escritor, eu não conheço.

As ideias não querem vir ao mundo. Não chega a surpreender (se pudéssemos escolher, quantos de nós teríamos vindo ?), mas é interessante pelos fórceps que obrigam a gente a usar. Um meu amigo jura que se deve assentar ao computador todo dia, num horário marcado, e ali se obrigar a escrever qualquer coisa, até domar a escrita. Outro me disse que inspiração é movida a deadline : tem que ter sempre um prazo vencendo.

Eu não tenho tanta certeza : suspeito que tudo isso funcione para escrever relatório trimestral, mas para o texto verdadeiro, mais embaixo me parece o buraco. Acho que a ideia tem um momento, um vigor, e quer ser colhida na hora ; tipo sonho, tão vibrante, tão rico no despertar, a gente faz um esforço tremendo para fixar os detalhes, mas logo ele embaça, desbota, esvanece. A ideia, quando se deixa apanhar, é no instante ; é momento de parar tudo, abrir o processador de textos, e dizer para a vida “ ‘pera um pouco”. Ou talvez eu queira acreditar nisso por afago à minha natureza indisciplinada, sei lá.

Mas sei que a ideia zomba da gente, tão clara na cabeça, tão óbvia, tão linda, a gente senta para escrever e descobre que é impossível. Está clara só para nós, falta a linearidade que a escrita exige : tem que desnovelar antes. O chato disso, é que às vezes já está tão evidente, tão bem resolvido na cuca, que a gente até enjoa da danada, pega um nojinho. Mas para trazer a bichinha ao mundo tem que insistir, tem que cansar, tem que ficar repisando.

No final, o trabalho de pegar uma ideia bonita e pôr num suporte tangível — fala, escrita, movimento, som, imagem ou ação — é de uma imensa generosidade. Penso em Mozart, para quem aquelas modulações deviam ser ainda mais maravilhosas na mente, e no quão chato devia ser sentar e escrever cada nota. Me dá um pânico, uma desolação, a hipótese do Mozart guardando a música consigo, desistindo de traze-la para nós. Tamanha, que me convence a fazer um esforço, abrir o Word, insistir.

“Bandido, Assassino !”

brocade-silk-bag“Bandido, assassino !”

O grito veio da rua. Segundo depois, dentro do carro, uma massa informe nos explodiu aos pés. Meu coração deu um salto, terror.

Era só uma bola de estrume.

“Matador de criança, assassino !”, o grito continuava.

O homem saiu da multidão, brucutu de um camponês transtornado, furioso, investindo para cima de nós. Em frente, uma manada de gente ia sem pressa. De novo, pânico.

O cocheiro parou os cavalos de um gesto, e ergueu para nós uma única sobrancelha inquisidora. Antônio, meu amigo e seu senhor, abanou um quase invisível ‘não’.

Ouvi sem ver o tiro, um estrondo. Uma arma surgira na mão do cocheiro ; o camponês já no chão, abraçando uma perna, urrando de dor. Silêncio de um momento, e depois um clamor de revolta da turba. Avançaram.

Novo tiro, novo susto. Dessa vez o cocheiro de pé, braço para cima.

“Chumbo de graça !”, urrou. “Quem quiser, é só chegar perto. Não precisa brigar : tem pra todo mundo.”

A multidão se afastou, abriu o caminho. De pé mesmo, o cocheiro sentou o galope. Atrás, de relance, vi sair carregado o moço do tiro.

“O filho da puta vai viver, não gaste sua culpa com isso,” Antônio disse, muito calmo. “Com sorte, talvez fique manco, mas eu não contaria nem com isso.”

Tirou do bolso um saquinho de seda brocado, e levou o pot-pourri ao nariz.

“Eu realmente sinto muito, vamos ter que tolerar essa catinga até sairmos da vila. Não vai ser seguro parar.”

Recompus a cara e pus na voz uma firmeza fingida :

“É só merda de vaca. Melhor do que o cheiro do povo.”

Antônio fungou um riso e pôs na minha mão um segundo saco de pot-pourri, mais bonito que o primeiro.

Eu sempre detestei pot-pourri — acho merda de vaca melhor — mas, por cortesia, aceitei.

(Crédito da imagem)

Fisiológico

A palavra rasga a página em branco, maculando a serenidade do vazio, impondo-se sozinha, vazando pelos meus dedos sem que eu queira ou me oponha. As letras se alinham formando algo que parece uma frase, a sintaxe lembra algo inteligível. Mas eu apenas sentia uma pressão que agora escapa pela tela limpa, nem penso e o movimento da mão faz aparecer o texto. Como bater ao piano uma velha melodia, lembrada mais no músculo que no cérebro. Um movimento amigo traz, aos arrancos, a sequência esquecida.

Pode ser que essa cadeia estranha de símbolos carregue em si alguma verdade, ou pode ser apenas encarnação de algum processo aleatório da alma. Assim de perto fica difícil distinguir sinal de ruído : é fácil querer dar forma às nuvens, como é fácil ignorar sinais de fumaça.

Não importa. Martelo as pequenas letras, que vão surgindo obedientes à minha vista. Vou batucando e descobrindo — ou fabricando — o sentido desta prosa : tec, tec, tec. Alguém que esbarrar nessas letrinhas enfileiradas pode também querer por nelas uma forma, ou então passar adiante sem vê-las, uma opção me parece tão boa quanto a outra. A broca cava o túnel por imposição da termodinâmica, que haja nisso qualquer arte é acidente. Consumir a madeira preserva a sanidade do inseto; sujar o silêncio, a minha.

Passa o Mozart Debaixo da Cordinha

A 10-cube projected in a 2D plane— Você não pode afirmar a superioridade de uma cultura sobre uma outra, isso bordeja -ismos da pior estirpe.

— Eu não afirmo. Claro que não afirmo! “Cultura” é uma coisa com dimensões demais para querer se estabelecer uma ordem total, você conhece a teoria melhor do que eu.

— Ao mesmo tempo, você se recusa…

— Eu me recuso, desculpe-me, todas as células do meu corpo, todas as fibras do meu ser, recusam-se a aceitar que o Concerto K. 491 e o polirritmo dos progenitores estejam no mesmo nível. Eu não posso demonstrar, infelizmente, mas para mim é a mesma coisa que afirmar que o PIB dos States é o mesmo de Sierra Lione.

— Você diz isso por que Mozart é a sua cultura…

— À merda com isso! Isso sempre me irrita. Por que Mozart seria mais meu do que seria do vizinho? Por que eu automaticamente teria mais Mozart do que teria Maracatu? O Mozart é alemão do século XVIII, e que eu saiba, eu sou tanto europeu do século XVIII quanto africano do século XVII.

— Você sabe que não é bem assim…

— Eu sei, mas também não é bem assado. Eu não nasci com um condicionante critical-theoretical baquiano que me tira o direito de olhar para o cravo bem temperado e para uma boa batucada e decretar a superioridade musical do primeiro sobre a segunda… se o viés cultural fosse tão definitivo, você sabe que eu não preferiria nem uma nem outra.

— Preferiria qual?

— Provavelmente A Dança da Cordinha.