Volto em meia hora

technosmithing-gearsCorri os olhos pelo templo. Uma penca de clientes se esparramava esparsa nos bancos, passando o tempo o melhor que podiam. Uma mulher tricotava à luz filtrada dos vitrais cafonas, apertando os olhos para não perder os pontos. Um rapaz olhava mesmerizado as arcadas, onde pinturas toscas mostravam suplícios de almas penadas. Um outro se estatelava no assento, pernas e braços abertos, toda compostura corroída pelo tédio.

Chegava a tarde sem que o templo esvaziasse de um pingo. Um que saía, vinha outro, senha na mão. Na entrada, Marcão recebia o freguês, examinava o papelzinho, abria a passagem.

Luciano havia distribuído cem senhas, que sumiram como pães quentes. Vai saber que cambalachos ele usava para manter o negócio tão próspero, mesmo neste fim de mundo. Entendi que houve um acordo com o cura para barrar a entrada dos Finetuners e dos Fix-it-all e, obviamente, parte da demanda vinha de consertar anos de sacagens perpretados por aqueles merdas. Luciano, esperto, regulava a conta-gotas as visitas, mantinha a roda girando. Rolavam histórias de gente revendendo as senhas por uma boa grana, apesar das ameaças do cura de que cambistas e usurários arderiam no fogo do inferno.

Que ocupássemos o templo foi obra também de Luciano. Disso eu não podia reclamar: a estrutura era melhor do que de muitas cidades maiores. A luz externa convergia toda para o altar dos santos, um simbolismo piegas de culto-velho, mas tanto melhor: pusemos ali as bancas do artesanato técnico. Iluminação que prestasse era condição básica para o trabalho, e, frequentemente, um problema.

Exclusividade e conforto não saíam de graça: Luciano molhava a mão do cura, e não era pouco. Todos sabíamos exatamente o quanto, porque entrava no Livrão, lançado em ‹Bribes, Extorsions, Rackets & Tips›. Tinha limites a aversão do cura pelo enriquecimento ilícito.

Monique, Bernardo e eu estávamos nas bancas de consulta. Juliana também, já que nesse arraial perdido, compra-e-venda era pouca. Luciano dava conta, fácil, do mercadinho improvisado no passadiço à direita. Gustavo, que era pau pra toda obra, ocupava a saleta de aula que instalamos em parte da nave, tentando fazer entrar alguma coisa em meia dúzia de cabeças-duras, duas horas por turma. Trabalho nada invejável.

Monique terminou de atender um cliente — quase sem pausa, chamou o próximo:

“Senha 37. Por favor, senha 37.”

Percebi que, desde que eu acabara com o calculista burro, já passava um minuto. Dos bancos, o povo me olhava ansioso. Uma da tarde. Chamo o próximo ou saio para comer? Decisão fácil.

«I’m out of here. Lunch. Back in thirty. Okay?»

«Yeah!» a resposta veio em coro.

Bernardo garantiu a vaga:

«I’m next, folks. I’m starving.»

Quinzão já estava nos meus calcanhares.

“Vai sair, tozim?”

Urgh. Doutor, doutorzinho, doutorzim, torzim, tozim. Urgh.

“Vou comer,” respondi seco.

“Vou contigo.”

Dizer “não” seria pura perda de tempo. Além disso, vai saber: mesmo nesses cafundós, sempre se podia tropeçar numa encrenca. Quinzão impunha respeito, atirava melhor que eu, e sabia usar os punhos. A conversa deixava um pouco a desejar, mas bem, não se pode ter tudo.

Apanhei o chapéu mas deixei o casaco. Mesmo em junho, nessa hora do dia? Bobagem.

No pórtico, Quinzão trocou com Marcão um soco amigável.

“A barraca tá contigo. Ó a responsa.”

“Vai na fé.”

Ganhamos a rua.

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