Fisiológico

A palavra rasga a página em branco, maculando a serenidade do vazio, impondo-se sozinha, vazando pelos meus dedos sem que eu queira ou me oponha. As letras se alinham formando algo que parece uma frase, a sintaxe lembra algo inteligível. Mas eu apenas sentia uma pressão que agora escapa pela tela limpa, nem penso e o movimento da mão faz aparecer o texto. Como bater ao piano uma velha melodia, lembrada mais no músculo que no cérebro. Um movimento amigo traz, aos arrancos, a sequência esquecida.

Pode ser que essa cadeia estranha de símbolos carregue em si alguma verdade, ou pode ser apenas encarnação de algum processo aleatório da alma. Assim de perto fica difícil distinguir sinal de ruído : é fácil querer dar forma às nuvens, como é fácil ignorar sinais de fumaça.

Não importa. Martelo as pequenas letras, que vão surgindo obedientes à minha vista. Vou batucando e descobrindo — ou fabricando — o sentido desta prosa : tec, tec, tec. Alguém que esbarrar nessas letrinhas enfileiradas pode também querer por nelas uma forma, ou então passar adiante sem vê-las, uma opção me parece tão boa quanto a outra. A broca cava o túnel por imposição da termodinâmica, que haja nisso qualquer arte é acidente. Consumir a madeira preserva a sanidade do inseto; sujar o silêncio, a minha.

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