Passa o Mozart Debaixo da Cordinha

A 10-cube projected in a 2D plane— Você não pode afirmar a superioridade de uma cultura sobre uma outra, isso bordeja -ismos da pior estirpe.

— Eu não afirmo. Claro que não afirmo! “Cultura” é uma coisa com dimensões demais para querer se estabelecer uma ordem total, você conhece a teoria melhor do que eu.

— Ao mesmo tempo, você se recusa…

— Eu me recuso, desculpe-me, todas as células do meu corpo, todas as fibras do meu ser, recusam-se a aceitar que o Concerto K. 491 e o polirritmo dos progenitores estejam no mesmo nível. Eu não posso demonstrar, infelizmente, mas para mim é a mesma coisa que afirmar que o PIB dos States é o mesmo de Sierra Lione.

— Você diz isso por que Mozart é a sua cultura…

— À merda com isso! Isso sempre me irrita. Por que Mozart seria mais meu do que seria do vizinho? Por que eu automaticamente teria mais Mozart do que teria Maracatu? O Mozart é alemão do século XVIII, e que eu saiba, eu sou tanto europeu do século XVIII quanto africano do século XVII.

— Você sabe que não é bem assim…

— Eu sei, mas também não é bem assado. Eu não nasci com um condicionante critical-theoretical baquiano que me tira o direito de olhar para o cravo bem temperado e para uma boa batucada e decretar a superioridade musical do primeiro sobre a segunda… se o viés cultural fosse tão definitivo, você sabe que eu não preferiria nem uma nem outra.

— Preferiria qual?

— Provavelmente A Dança da Cordinha.

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